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Cerebrolysin em crianças com autismo: resultado promissor ou evidência ainda insuficiente?

Estudo aberto observou redução na CARS, porém a ausência de controle, randomização e cegamento impede atribuir a melhora ao Cerebrolysin.

Capa do artigo Cerebrolysin em crianças com autismo: resultado promissor ou evidência ainda insuficiente?

Depois dos resultados observados em modelos animais, um passo natural seria investigar se o Cerebrolysin também poderia produzir benefícios em seres humanos. Foi justamente essa a proposta do estudo de Ashrafi e colaboradores, publicado no Iranian Journal of Pediatrics, que avaliou crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA).

À primeira vista, o trabalho parece representar um avanço importante: saímos do laboratório e passamos para uma investigação clínica. No entanto, um estudo realizado em seres humanos não produz automaticamente uma evidência mais forte. Tudo depende de como ele foi desenhado, conduzido e analisado.

E aqui está o principal ponto dessa análise: o estudo encontrou melhora após a intervenção, mas não conseguiu demonstrar que essa melhora foi realmente causada pelo Cerebrolysin.

O que os pesquisadores fizeram?

O estudo inicialmente incluiu 40 crianças entre 3 e 10 anos. Quatro não completaram o protocolo, deixando 36 participantes na análise final: 22 meninos e 14 meninas.

As crianças receberam Cerebrolysin por via intramuscular, na dose de 0,1 mL/kg, durante dois meses. O protocolo totalizou 18 aplicações.

O Cerebrolysin foi acrescentado ao tratamento que as crianças já realizavam. Medicamentos, acompanhamento clínico, terapia ocupacional, reabilitação e fonoaudiologia puderam ser mantidos durante o período da pesquisa.

Para avaliar os resultados, os pesquisadores utilizaram principalmente a Childhood Autism Rating Scale, conhecida como CARS. Essa escala reúne diferentes aspectos relacionados à interação social, comunicação, respostas emocionais, adaptação a mudanças e comportamento.

Após a intervenção, a pontuação média da CARS diminuiu de aproximadamente 40,6 para 36,1 pontos. Isso representa uma redução média de cerca de 4,5 pontos, equivalente a aproximadamente 11%.

Os autores interpretaram esse resultado como uma indicação de melhora clínica e concluíram que o Cerebrolysin poderia ser uma intervenção segura e eficaz quando associado ao tratamento habitual.

Mas essa conclusão precisa ser examinada com bastante cuidado.

Melhorar depois do tratamento não significa melhorar por causa do tratamento

O principal problema metodológico é que não houve um grupo controle.

Todas as crianças receberam Cerebrolysin. Não existiu um grupo semelhante recebendo placebo ou apenas o tratamento habitual.

Sem essa comparação, não podemos saber o que teria acontecido com essas crianças caso elas não tivessem recebido a intervenção.

A melhora poderia estar relacionada ao Cerebrolysin, mas também poderia ser explicada por outros fatores:

  • continuidade da fonoaudiologia e da terapia ocupacional;
  • uso concomitante de medicamentos;
  • desenvolvimento natural das crianças;
  • mudanças no ambiente familiar ou escolar;
  • variação espontânea das manifestações clínicas;
  • maior atenção recebida durante o estudo;
  • expectativas dos familiares e pesquisadores;
  • regressão à média.

A regressão à média acontece quando uma pessoa entra em um estudo durante um período de maior intensidade dos sintomas e, posteriormente, apresenta alguma melhora natural. Sem um grupo controle, essa mudança pode ser interpretada incorretamente como efeito do tratamento.

Portanto, o estudo demonstra que as pontuações mudaram ao longo do tempo. Ele não consegue demonstrar por que elas mudaram.

A ausência de cegamento também importa

Outro problema é que o estudo foi aberto. Os familiares, pesquisadores e avaliadores sabiam que as crianças estavam recebendo Cerebrolysin.

Isso é especialmente relevante porque o principal resultado foi obtido por meio de uma escala baseada em observação clínica.

Quando o avaliador sabe que uma intervenção está sendo realizada, suas expectativas podem influenciar, mesmo involuntariamente, a interpretação do comportamento. Isso não significa fraude ou manipulação. Trata-se de um viés humano conhecido e de uma das razões pelas quais os ensaios clínicos procuram utilizar cegamento sempre que possível.

Um desenho mais robusto deveria comparar:

tratamento habitual associado ao Cerebrolysin
com:
tratamento habitual associado a placebo

As crianças, os familiares e, principalmente, os responsáveis pela avaliação dos resultados não deveriam saber qual intervenção cada participante receberia.

O que significa uma redução de 4,5 pontos?

A redução média na CARS foi estatisticamente significativa. Entretanto, significância estatística não é necessariamente sinônimo de benefício clínico importante.

O estudo não apresentou adequadamente uma definição prévia do que seria considerado uma resposta clinicamente relevante. Também não informou quantas crianças alcançaram uma melhora funcional claramente perceptível em sua comunicação, interação social, autonomia ou qualidade de vida.

Uma redução na média do grupo pode ocorrer mesmo quando algumas crianças melhoram bastante, outras melhoram pouco e algumas não apresentam qualquer mudança.

Também faltaram medidas como tamanho do efeito, intervalos de confiança e uma análise mais completa da influência da idade, do sexo, da gravidade inicial e dos tratamentos concomitantes.

Assim, o resultado numérico merece atenção, mas ainda não permite afirmar que houve um benefício funcional consistente.

A questão da segurança

Os autores descrevem o tratamento como seguro. Essa conclusão também deve ser relativizada.

Quatro das 40 crianças inicialmente incluídas não completaram o protocolo por apresentarem agitação ou irritabilidade associadas ao medo e ao desconforto das aplicações intramusculares. Isso corresponde a 10% da amostra inicial.

É possível que essas manifestações tenham sido causadas pelo procedimento de aplicação, e não por um efeito farmacológico do produto. Mesmo assim, elas fazem parte da tolerabilidade prática do tratamento e precisam ser consideradas.

Além disso, uma amostra pequena e acompanhada por pouco tempo não permite estabelecer segurança de maneira abrangente. Eventos adversos raros ou efeitos relacionados ao uso prolongado dificilmente seriam identificados nesse desenho.

Portanto, o estudo pode fornecer informações preliminares sobre viabilidade e tolerabilidade, mas não comprova segurança em longo prazo.

Um produto complexo do ponto de vista farmacológico

O Cerebrolysin não é uma molécula única. Ele é uma mistura de peptídeos e aminoácidos derivados de tecido cerebral suíno.

Essa característica cria uma dificuldade adicional para a investigação científica. Mesmo que um benefício seja confirmado, ainda seria necessário responder às seguintes perguntas:

Qual componente produziu o efeito? Qual receptor ou via molecular foi atingido? Existe uma relação clara entre dose e resposta? A composição permanece consistente entre diferentes lotes?

Na pesquisa farmacológica clássica, procuramos estabelecer uma sequência relativamente clara:

molécula → alvo biológico → dose → resposta clínica.

Quando trabalhamos com uma mistura complexa, essa relação se torna mais difícil de demonstrar.

Isso não significa que uma mistura não possa produzir efeitos biológicos. Significa apenas que sua caracterização farmacológica exige um programa de pesquisa mais detalhado.

Uma correção regulatória importante

O artigo afirma que o Cerebrolysin teria aprovação da FDA para a doença de Alzheimer nos Estados Unidos. Essa informação não corresponde aos registros oficiais disponíveis.

Uma carta de advertência publicada pela FDA afirma que o Cerebrolysin não é componente de um medicamento aprovado pela agência para uso humano.

Essa incorreção não invalida automaticamente os dados coletados no estudo, mas deve ser corrigida para que uma informação regulatória equivocada não continue sendo reproduzida.

Então o estudo não tem valor?

Tem, mas seu valor deve ser colocado no lugar correto.

O trabalho mostra que foi possível realizar a intervenção e acompanhar um grupo de crianças utilizando uma escala clínica reconhecida. Também fornece uma estimativa inicial da possível magnitude da mudança e levanta uma hipótese que pode ser testada em estudos mais rigorosos.

O problema aparece quando um estudo exploratório é apresentado como prova de eficácia.

A conclusão cientificamente mais adequada não seria afirmar que o Cerebrolysin é eficaz no TEA. Seria afirmar que:

Foi observado um sinal clínico preliminar que precisa ser confirmado em um ensaio randomizado, controlado e adequadamente cego.

Essa diferença pode parecer pequena, mas representa a fronteira entre uma hipótese promissora e uma recomendação clínica.

O que deveria ser feito a seguir?

Um próximo estudo precisaria incluir uma amostra maior, cálculo prévio do número de participantes, randomização, grupo placebo, cegamento dos avaliadores e padronização dos tratamentos concomitantes.

Também seria necessário definir antecipadamente um desfecho principal e o que seria considerado uma melhora clinicamente relevante.

A CARS poderia continuar sendo utilizada, mas deveria ser acompanhada por avaliações funcionais, medidas de comunicação, autonomia, participação social, qualidade de vida e percepção dos familiares.

Outro ponto fundamental seria acompanhar as crianças por um período mais prolongado. Não basta saber se a pontuação muda após algumas semanas. Precisamos saber se a mudança permanece e se realmente produz impacto na vida cotidiana.

Conclusão

O estudo de Ashrafi e colaboradores é interessante porque leva a investigação do Cerebrolysin para crianças com TEA. No entanto, o desenho aberto, sem randomização, sem cegamento e sem grupo controle limita profundamente suas conclusões.

A redução observada na CARS pode representar um sinal clínico. Mas não é possível separar o possível efeito do Cerebrolysin das terapias concomitantes, do desenvolvimento natural, das expectativas dos avaliadores e de outras fontes de viés.

Por isso, este artigo deve ser compreendido como um estudo exploratório e gerador de hipóteses. Ele não fornece evidência suficiente para recomendar o Cerebrolysin como tratamento do TEA.

Na ciência, resultados promissores são importantes. Mas quanto mais relevante for a promessa terapêutica, maior deve ser o rigor utilizado para testá-la.

Melhora observada não é necessariamente eficácia comprovada.

O papel da pesquisa clínica é justamente construir controles capazes de mostrar se o benefício é verdadeiramente farmacológico, clinicamente relevante, seguro e reproduzível.

O artigo completo pode ser consultado aqui.