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Hormônios e peptídeos são a mesma coisa?

Peptídeo descreve uma estrutura; hormônio, uma função. Entenda onde essas categorias se encontram e por que não são sinônimos.

Capa do artigo Hormônios e peptídeos são a mesma coisa?

As palavras “hormônio” e “peptídeo” aparecem frequentemente juntas. Insulina, glucagon, ocitocina e vasopressina, por exemplo, podem ser descritos como hormônios peptídicos.

Isso pode produzir uma dúvida:

Todo peptídeo é um hormônio? E todo hormônio é um peptídeo?

A resposta para as duas perguntas é não.

Peptídeo e hormônio representam formas diferentes de classificar uma molécula.

Peptídeo descreve principalmente sua estrutura química.

Hormônio descreve principalmente sua função como mensageiro biológico.

As duas categorias podem se sobrepor, mas não são equivalentes.

O que significa dizer que uma molécula é um peptídeo?

Como vimos nos textos anteriores, um peptídeo é formado por aminoácidos ligados entre si por ligações peptídicas.

Quando chamamos uma molécula de peptídeo, estamos descrevendo características como:

  • composição;
  • sequência de aminoácidos;
  • tamanho;
  • organização estrutural;
  • tipo de ligação química.

O termo não determina automaticamente o que essa molécula faz.

Um peptídeo pode funcionar como:

  • hormônio;
  • neurotransmissor ou neuromodulador;
  • mediador local;
  • componente da resposta imunológica;
  • molécula antimicrobiana;
  • inibidor de enzimas;
  • fragmento produzido durante a degradação de uma proteína;
  • componente estrutural ou funcional de uma molécula maior.

Portanto, nem todo peptídeo é um hormônio.

O que é um hormônio?

Hormônios são moléculas utilizadas pelo organismo para transmitir informações e coordenar funções fisiológicas.

Eles podem participar da regulação:

  • do metabolismo;
  • do crescimento;
  • do desenvolvimento;
  • da reprodução;
  • da pressão arterial;
  • do equilíbrio de líquidos;
  • da glicose;
  • do apetite;
  • do sono;
  • da resposta ao estresse;
  • do comportamento.

A definição clássica descrevia um hormônio como uma substância produzida por uma glândula, liberada no sangue e transportada até um órgão-alvo distante.

Essa definição foi importante para o desenvolvimento da endocrinologia, mas hoje sabemos que ela é incompleta.

Hormônios também podem ser produzidos por tecidos que não são classificados como glândulas endócrinas tradicionais. Além disso, algumas moléculas podem exercer ações locais, próximas ao lugar em que foram liberadas.

O artigo científico What Is a Hormone? discute justamente essa dificuldade: as fronteiras entre hormônios, citocinas, fatores de crescimento, neuropeptídeos e outros mensageiros biológicos nem sempre são absolutas.

Assim como acontece com a diferença entre peptídeo e proteína, a biologia apresenta uma continuidade maior do que nossas classificações sugerem.

Uma classificação pela estrutura e outra pela função

A diferença pode ser organizada desta forma:

Peptídeo

Responde principalmente à pergunta:

“Do que essa molécula é formada?”

A resposta: de aminoácidos unidos por ligações peptídicas.

Hormônio

Responde principalmente à pergunta:

“Qual papel essa molécula exerce no organismo?”

A resposta: funciona como mensageiro e ajuda a coordenar processos fisiológicos em células ou tecidos que possuem receptores compatíveis.

Essa distinção permite compreender por que uma molécula pode ser simultaneamente:

  • um peptídeo, pela sua estrutura;
  • e um hormônio, pela sua função.

A insulina é um exemplo.

Ela é formada por aminoácidos e, portanto, possui natureza peptídica. Ao mesmo tempo, é liberada pelas células beta pancreáticas e transmite informações relacionadas ao estado metabólico. Por isso, é classificada como hormônio peptídico.

Todo hormônio é formado por aminoácidos?

Não.

Os hormônios podem pertencer a diferentes classes químicas.

Hormônios peptídicos e proteicos

São constituídos por cadeias de aminoácidos.

Entre os exemplos estão:

  • insulina;
  • glucagon;
  • ocitocina;
  • vasopressina;
  • paratormônio;
  • ACTH;
  • GLP-1.

Esses hormônios geralmente são produzidos inicialmente como precursores maiores, processados dentro da célula e armazenados em vesículas ou grânulos.

Quando a célula recebe um estímulo adequado, eles podem ser liberados por exocitose.

Por serem, em geral, hidrossolúveis e apresentarem dificuldade para atravessar diretamente a membrana celular, costumam atuar por meio de receptores localizados na superfície das células.

Hormônios esteroides

São derivados do colesterol.

Entre os exemplos estão:

  • cortisol;
  • aldosterona;
  • testosterona;
  • estradiol;
  • progesterona.

Eles não são peptídeos.

Por apresentarem características lipossolúveis, podem atravessar a membrana celular e interagir com receptores no citoplasma ou no núcleo.

Esses receptores podem modificar a expressão de genes e alterar a produção de proteínas.

Isso não significa que hormônios esteroides atuem sempre lentamente ou apenas por mecanismos genômicos. Existem respostas rápidas e diferentes formas de sinalização. Ainda assim, a atuação por receptores intracelulares é uma característica importante dessa classe.

Hormônios derivados de aminoácidos

Alguns hormônios são produzidos a partir da modificação de aminoácidos individuais, mas não formam cadeias peptídicas.

Exemplos incluem:

  • adrenalina;
  • noradrenalina;
  • dopamina;
  • tiroxina;
  • triiodotironina;
  • melatonina.

As catecolaminas e os hormônios da tireoide são derivados principalmente da tirosina, enquanto a melatonina é produzida a partir do triptofano.

Dizer que uma molécula deriva de um aminoácido não significa que ela seja um peptídeo. Para ser classificada como peptídeo, deve existir uma cadeia de resíduos de aminoácidos ligados por ligações peptídicas.

Outros mensageiros derivados de lipídios

O organismo também produz mensageiros derivados de lipídios, como prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos.

Muitas dessas moléculas atuam predominantemente próximas ao local em que foram produzidas e podem ser classificadas como mediadores locais ou autacoides.

Dependendo da área científica e do contexto, algumas classificações podem aproximá-las do conceito de hormônio. Isso reforça que as fronteiras terminológicas nem sempre são universais.

Todo peptídeo é um hormônio?

Também não.

Existem peptídeos que exercem outras funções.

Neuropeptídeos

Neuropeptídeos são produzidos por neurônios e utilizados na comunicação do sistema nervoso.

Eles podem modificar:

  • percepção da dor;
  • apetite;
  • estresse;
  • sono;
  • recompensa;
  • comportamento;
  • atividade autonômica.

Alguns atuam próximos ao local de liberação, modulando outros neurônios. Outros podem alcançar a circulação e exercer funções neuroendócrinas.

Isso significa que a mesma molécula pode ser chamada de neuropeptídeo em determinado contexto e de hormônio em outro.

Peptídeos antimicrobianos

Células da pele, mucosas e sistema imunológico podem produzir peptídeos capazes de participar da defesa contra bactérias, fungos e outros microrganismos.

As defensinas são exemplos de peptídeos antimicrobianos.

Embora possam participar da comunicação imunológica, sua principal classificação não é necessariamente a de hormônio.

Peptídeos produzidos pela degradação de proteínas

Quando uma proteína é quebrada, podem surgir fragmentos peptídicos.

Alguns são apenas produtos intermediários da degradação e não apresentam função conhecida. Outros podem adquirir atividade biológica própria.

Portanto, a existência de uma sequência peptídica não significa automaticamente que ela seja um hormônio ou mensageiro ativo.

Peptídeos utilizados como sinais locais

Alguns peptídeos atuam principalmente próximos à célula que os produziu.

Nessa situação, podem funcionar por comunicação parácrina ou autócrina.

Comunicação parácrina

A molécula atua em células vizinhas.

Comunicação autócrina

A molécula atua sobre a própria célula que a produziu ou sobre células do mesmo tipo.

Comunicação endócrina

A molécula entra na circulação e atua em tecidos mais distantes.

Comunicação neurocrina

A molécula é liberada por neurônios e atua sobre outras células nervosas ou tecidos.

Essas categorias descrevem o modo de comunicação. Elas não dependem apenas da estrutura química da molécula.

A mesma molécula pode ter mais de uma função?

Sim.

A função pode depender de:

  • local de produção;
  • forma de liberação;
  • concentração;
  • distância até o alvo;
  • receptores presentes;
  • tecido envolvido;
  • estado fisiológico.

A somatostatina é um exemplo interessante.

Ela pode ser produzida no hipotálamo, no pâncreas, no trato gastrointestinal e em neurônios. Dependendo do local, pode atuar como hormônio, sinal parácrino ou neuromodulador.

A ocitocina também pode atuar perifericamente, participando do parto e da ejeção do leite, e centralmente, modulando circuitos neurais.

Portanto, a classificação de uma molécula não depende apenas de sua identidade química. O contexto biológico também importa.

O nascimento do conceito de hormônio

A história da palavra “hormônio” está ligada a um peptídeo.

No início do século XX, pesquisadores observaram que a presença de ácido no intestino estimulava a secreção pancreática, mesmo quando as conexões nervosas haviam sido interrompidas.

A substância envolvida nesse processo foi chamada de secretina.

Essa descoberta ajudou a demonstrar que órgãos podiam se comunicar por sinais químicos transportados pelo organismo, sem depender exclusivamente da comunicação nervosa.

Em 1905, Ernest Starling utilizou o termo “hormônio” para descrever esse tipo de mensageiro.

A secretina é um hormônio peptídico. Portanto, um peptídeo esteve diretamente relacionado à construção do conceito moderno de comunicação endócrina.

Hormônio sempre circula pelo sangue?

Na definição endócrina clássica, o hormônio é liberado na circulação e atua à distância.

Essa continua sendo uma ideia central da endocrinologia.

Entretanto, moléculas tradicionalmente chamadas de hormônios também podem apresentar ações locais. Da mesma forma, sinais inicialmente classificados como locais podem produzir efeitos sistêmicos em determinadas condições.

Por isso, a distância entre o local de produção e o local de ação ajuda na classificação, mas nem sempre resolve todas as situações.

O mais importante é compreender que hormônios carregam informação biológica e atuam em células capazes de reconhecer essa mensagem.

Hormônio age apenas em órgãos específicos?

Um hormônio pode circular por diferentes regiões do corpo, mas sua ação depende da distribuição dos receptores.

Se determinada célula não possui o receptor necessário, ela não responderá diretamente àquela molécula.

Além disso, tecidos diferentes podem apresentar:

  • quantidades distintas do mesmo receptor;
  • diferentes proteínas sinalizadoras;
  • diferentes mecanismos de degradação;
  • diferentes genes disponíveis para ativação.

Assim, o mesmo hormônio pode produzir respostas distintas em diferentes tecidos.

A identidade da molécula não é suficiente para prever toda a resposta. Precisamos conhecer também o receptor, o tecido e o contexto fisiológico.

Um medicamento peptídico é automaticamente um hormônio?

Não.

Um medicamento peptídico pode apresentar diferentes relações com a fisiologia humana.

Ele pode ser:

  • idêntico a um hormônio produzido pelo organismo;
  • uma versão sintética com a mesma sequência;
  • um análogo modificado;
  • um agonista desenvolvido para ativar o mesmo receptor;
  • um antagonista criado para bloquear o receptor;
  • um peptídeo sem equivalente hormonal natural conhecido.

Quando uma molécula é inspirada em um hormônio natural, modificações podem aumentar sua duração, estabilidade ou seletividade.

Isso pode ser terapeuticamente útil, mas significa que seu comportamento não será necessariamente idêntico ao do hormônio produzido pelo corpo.

Um análogo farmacológico pode permanecer ativo por horas ou dias, enquanto o hormônio natural pode ser degradado em minutos.

Portanto, “baseado em um hormônio natural” não significa “igual à fisiologia natural”.

A palavra “hormônio” garante segurança?

Não.

Hormônios são moléculas biologicamente potentes. Pequenas concentrações podem produzir mudanças relevantes no organismo.

Quando administramos um hormônio ou um análogo, podemos alterar sistemas que normalmente são controlados por mecanismos de retroalimentação.

O resultado depende de:

  • indicação;
  • dose;
  • duração;
  • via de administração;
  • distribuição dos receptores;
  • características individuais;
  • presença de doenças;
  • interação com outros medicamentos.

Uma substância não se torna segura apenas porque é chamada de hormônio ou porque existe naturalmente no corpo.

Da mesma forma, uma molécula sintética não é automaticamente perigosa. Segurança e eficácia devem ser demonstradas por estudos adequados.

Por que essa distinção é importante?

Compreender a diferença entre hormônio e peptídeo ajuda a evitar algumas conclusões incorretas:

“É peptídeo, então é hormônio.”
Nem todo peptídeo exerce função hormonal.

“É hormônio, então é peptídeo.”
Hormônios também podem ser esteroides ou derivados de aminoácidos.

“O corpo produz, então é seguro administrar.”
Produção fisiológica e administração farmacológica são situações diferentes.

“Imita um hormônio, então reproduz exatamente a fisiologia.”
Análogos podem apresentar duração, potência e distribuição diferentes.

“Liga-se ao mesmo receptor, então produz o mesmo resultado.”
Diferentes ligantes podem ativar o receptor com intensidades e padrões distintos.

Essas diferenças são fundamentais para interpretar estudos e avaliar alegações comerciais.

Conclusão

Hormônios e peptídeos não são a mesma coisa.

Peptídeo é uma classificação predominantemente estrutural: uma cadeia formada por aminoácidos.

Hormônio é uma classificação predominantemente funcional: uma molécula que transmite informações e ajuda a coordenar processos fisiológicos.

Alguns peptídeos são hormônios, como insulina, glucagon e ocitocina. Outros atuam como neuropeptídeos, mediadores locais ou moléculas de defesa.

Da mesma forma, nem todo hormônio é peptídico. Cortisol, testosterona e estradiol são esteroides. Adrenalina e hormônios da tireoide são derivados de aminoácidos individuais.

“Peptídeo” descreve principalmente do que a molécula é feita; “hormônio” descreve principalmente o que ela faz.

Referências

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  9. IUPAC–IUBMB. Nomenclature and Symbolism for Amino Acids and Peptides.

Série Peptídeos do Zero
Departamento Científico da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Peptídeos

Prof. Dr. Leonardo Penteado Nascimento
Departamento Científico
Sociedade Brasileira de Pesquisa em Peptídeos — SBPP